quinta-feira, 28 de março de 2013

Mitande, Finalmente



Conheci finalmente o Centro de Saúde onde irei trabalhar já a partir de amanhã [até tenho bicicleta para as deslocações ao local de trabalho!]… é um espaço agradável, onde as consultas pediátricas são feitas no parô [um alpendre] e a toda organização tem um conceito mui particular. Fomos recebidas por uma auxiliar de limpeza, muito simpática, que roía mandioca crua enquanto, sem luvas, tentava puncionar um bebé [qualquer coisa que choque almas sensíveis, aconselho desde já que interrompem a leitura e ocupem-se de coisas mais interessantes]. Esta senhora auxiliar de limpeza, que meteu a mandioca crua assim que viu uma branca, ficou felicíssima por saber que terei todo o gosto em trabalhar ali com ela... confesso que compreendo o seu sentimento: está responsável pela maternidade, é ela que faz consultas pré-natais, vigilâncias, ensinos... e partos! [eu avisei para não lerem até ao fim…]
Durante a tarde, passei pela escola com vista a conhecer a senhora que chegou ao centro de nutrição, grávida de 8 meses e com um filho desnutrido de 1 ano [percebe-se porquê]. Entretanto não cheguei ao centro… os olhares curiosos de uma turma do 6ºano olharam tão fixamente para mim que lá fui até à sala e por ali fiquei. O professor foi à cidade, hoje não iriam ter aulas. “que disciplina vão ter?” “[coro]: Inglês”. E prontos, lá ficou a Fátima a ensinar inglês… past continuous e, depois, um pouco de vocabulário. Desenho uma maça no quadro e penso para comigo que eles possivelmente nunca viram uma maça... “o que é isto?” “[coro]: Orange” “muito bem! Orange!” [Ah Maria de Fátima, és mesmo péssima no desenho]. Vou até um aluno que tem o livro aberto e, como por magia, um gafanhoto vindo não sei de onde na cabeça [é sempre difícil, nestes momentos, controlar um grito, principalmente quando não se espera a presença simpática de um bicho daqueles numa cabeça negra dentro de uma sala de aulas]. Foi a gargalhada geral [a mulunga tem medo de gafanhotos]. “Irmã, como sei diz gafanhoto em Inglês?”. Eu sei lá amigos! E como se diz “olá, como está em Macua?” “[coro]: Salama Mocheleliwa”

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dia do Pai

Porque ontem foi o Dia do Pai [no mundo ocidental], deixo aqui a minha versão do Dia do Pai em Lichinga.
Isto é, aqui, na capital do Niassa, duvido que algum papá saiba que foi o seu dia... mas também, o que é que isso interessa, macua que é macua sabe que o pai não tem qualquer importância (que é filho dela é, agora dele? quem comprova? não foi a ele que cresceu a barriga, pois não?!).
Por sinal, veio um papá aqui a casa, e demos-lhes os parabéns, mas, está claro, ficou estupefacto. Dia do Pai? mas isso existe?? (mania de querer transpor festas ocidentais para a beira do Índico).
Contudo, eles sabem que é dia de S. José, sim, isso sabem... patrono da Catedral de Lichinga, e, portanto, com direito a missa dançada e cantada a três tons de cerca de duas horas (nada que não estivesse já preparada). O que não estava mesmo à espera era do ofertório, com dança organizada ao pormenor: primeiro as dançarinas com cestos de pães [que por pouco não caíram, tal era o entusiasmo], depois os baldes de frutas tropicais à cabeça das mamãs bailarinas, e, por último, surgem dois papás, também eles dançando... e  que traziam eles? eis que cada um segurava duas das patas de um caprino, e o desgraçado, não percebendo muito bem o que se estava ali a passar, lá vinha aos solavancos pela igreja a cima. Imaginem-se a pegar na Miquelina dos Anjos e a transportá-la pela igreja acima... havia de ser bonito!
Conter o riso aqui, às vezes, é difícil... Por vezes questiono-me se os africanos, por eu ter esta doença de  pele cor lixívia quando nasci, percebem as minhas expressões de espanto e de tentativas frustradas em conter o riso...
A lamparina espera que todos os papás tenham tido um bom dia do Pai, quer saibam que tenha sido o seu dia, quer não.
E, como não podia deixar de ser, 'Estamos Juntos'

Lançamento de papagaios de papel
[está-lhes na cara que faltaram à escola para irem brincar... se os papás sabem!]

quinta-feira, 14 de março de 2013

África, finalmente!

Após umas boas horas de viagem, e uns bons dias de inculturação e adaptação ao hemisfério sul, anuncio que não poderia estar melhor. O calor é agradável, as praias paradisíacas são mais paradisíacas do que parece nas fotos dos guias turísticos, a terra é mais vermelha, os chapas são mais desconfortáveis do que imaginava, mas chegam a todo o lado a uma velocidade louca [até diria assustadora], o olhar negro das crianças é mais penetrante e encantador, a vida das mulheres é mais dura [mas bela], a rede mosquiteira faz-me adormecer como princesa, a manga é mais doce, o maracujá mais amarelo e a laranja não é laranja é verde, o camarão de extrema qualidade é surpreendentemente barato, as danças mais harmoniosas, a arte mais única, as pessoas mais acolhedoras, os rapazitos mais insuportáveis e as capulanas de mil cores têm mais do que as 101 funções que conhecia. Do pôr-do-sol e das estrelas falo quando tiver no mato, se tiver electricidade e net, está claro ;).
Até lá, ‘estamos juntos’